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Reflexões sobre a visita ao Guacamolón

Pode 08 2026

Por Ana Alves Machado

Na semana passada, visitamos o Palácio Nacional da Cultura, ou como os guatemaltecos o apelidaram, “El Guacamolón” (O Grande Abacate), por causa de sua cor verde característica. Ele está localizado no centro histórico da Cidade da Guatemala. Hoje, serve como sede da Presidência da Guatemala e está aberto ao público para visitas guiadas. 

O palácio foi construído entre 1932 e 1943, durante o governo do General Jorge Ubico. Podemos ver sua marca por toda parte no edifício, desde sua impressão digital na maçaneta de cada porta; à cor verde, que era sua favorita; e ao número cinco que aparece em todos os lugares – das janelas às colunas. Além da obsessão de Ubico com o número cinco, o palácio contém muitos vitrais belíssimos que romantizam a relação entre os povos indígenas e os colonizadores espanhóis. Esses vitrais contam uma história falsa, onde a Guatemala foi construída por uma harmonia entre europeus e povos indígenas, resultando na Guatemala de hoje.

Pessoas atravessando uma praça em direção a um grande palácio verde.

Caminhando em direção ao Palácio Nacional. Foto de Ana Alves Machado.

Nossa breve visita ao palácio me fez refletir bastante sobre o que leva a um governo ditatorial. Quando Ubico governou como ditador, de 1931 a 1944, ele permitiu o trabalho forçado de indígenas e a defesa armada da propriedade privada, o que levou à severa repressão dos trabalhadores. Em resposta, os guatemaltecos lideraram uma revolução que depôs a ditadura militar, dando início a um período conhecido como os “Dez Anos de Primavera”. 

Em 1954, no entanto, um golpe de Estado apoiado pelos EUA depôs o presidente Jacobo Arbenz. As reformas agrárias de Arbenz haviam expropriado terras não utilizadas da United Fruit Company, empresa americana. Ele foi sumariamente rotulado de comunista, o que desencadeou uma ação militar apoiada pela CIA para proteger os interesses corporativos e impedir a influência soviética na região. Após isso, a Guatemala sofreu uma série de ditaduras militares e uma sangrenta guerra civil. Durante esse período, os governos militares cometeram violações generalizadas dos direitos humanos contra civis, culminando no genocídio da população indígena. 

Uma fonte em um longo tanque raso cercado por pilares brancos.

Foto de Ana Alves Machado.

Muitos outros países da América Latina também sofreram com governos ditatoriais, incluindo o país em que cresci. O Brasil também teve duas eras distintas de governos ditatoriais. A primeira foi sob Getúlio Vargas, que governou como ditador de 1930 a 1945 e foi reeleito em 1951. Seu governo foi caracterizado pelo nacionalismo e pela centralização do poder. Ele também expandiu a industrialização e criou leis trabalhistas que lhe renderam o apelido de "pai dos pobres", embora esse apelido amplamente utilizado tenha sido fortemente influenciado pelo DIP (Departamento de Mídia e Propaganda) de Vargas. O DIP censurava fortemente notícias, rádio e artistas. O governo de Vargas também reprimia protestos e perseguia intelectuais, como professores e estudantes universitários, ou qualquer pessoa que se opusesse ao governo. 

O período seguinte no Brasil, de 1945 a 1964, assim como na Guatemala, foi um período entre governos opressivos. Foi marcado por avanços, mas também por instabilidade econômica, que levou a outro golpe de Estado em 1964 e a um período de mais de duas décadas de regime autoritário com forte apoio dos EUA. Esses governos também foram caracterizados por mortes, desaparecimentos, tortura e censura. Algumas famílias ainda não sabem o que aconteceu com seus entes queridos durante esses anos. Filmes brasileiros recentes indicados ao Oscar contam algumas dessas histórias, como Secret Agent e Ainda estou aqui

Duas jovens mulheres lendo nomes gravados em um pilar de pedra.

Na Catedral Metropolitana da Guatemala, em frente ao Palácio Nacional, estudantes criaram decalques com os nomes de guatemaltecos desaparecidos durante a guerra civil. Foto de Elizabeth Miller.

Durante nossa visita ao palácio, vimos uma exposição temporária sobre a vida de Monsenhor Juan José Girardi. Aqui na Guatemala, Girardi ajudou a documentar as atrocidades da guerra civil, para que as famílias pudessem saber o que aconteceu com seus entes queridos que foram mortos ou desapareceram. Embora os acordos de paz tenham sido assinados em 1996, após 36 anos de guerra civil, grande parte da verdade sobre os detalhes do conflito armado permaneceu oculta do público nos anos imediatamente posteriores aos acordos.

Em seu papel como bispo da Igreja Católica, Girardi atuou como defensor dos direitos humanos e principal idealizador do projeto REEMHI (Recuperação da Memória Histórica), que documentou as atrocidades contra os direitos humanos durante a guerra civil guatemalteca. Por esse mesmo motivo, ele foi assassinado por membros das forças armadas guatemaltecas em 1998, apenas dois dias após a apresentação pública do relatório inicial do REEMHI. O relatório foi posteriormente publicado como Guatemala: Nunca Mais; Seu título representa um compromisso com a prevenção da recorrência de violência, desaparecimentos forçados e tortura. 

Embora essas histórias tenham acontecido há mais de 20 anos, as memórias ainda estão vivas. Assim como no Brasil e na Guatemala, é importante conhecer a história de nossos países para que isso não se repita. Precisamos saber o que acontece em nossos governos, quando líderes surgem e a população os idolatra, quando a mídia é censurada e manipulada e quando o governo esconde coisas.

Se não mantivermos uma perspectiva crítica, colocamos em risco nossos vizinhos, nossa família e a nós mesmos. 

Um grupo de 18 pessoas posando para uma foto.

Nosso grupo no Palácio Nacional na Cidade da Guatemala. Foto de Santos Méndez.

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